Savitri Devi, a mística fascista que admirava Hitler e que está sendo 'ressuscitada' pela extrema direita

Savitri Devi no ano de 1980  (Foto: Savitri Devi Archive)
Ao navegar pelo site oficial do partido ultranacionalista grego Aurora Dourada para uma reportagem, em 2012, me deparei com a foto de uma mulher envolvida em um sári de seda azul. Ela olhava para um busto de Adolf Hitler, diante de um intenso pôr do sol.
Mas o que aquela mulher com aparência indiana fazia na página de um partido abertamente racista que quer expulsar todos os estrangeiros da Grécia?
Aquela informação ficou guardada na minha memória. Até que a crescente onda de políticas de extrema direita, que varreu a Europa e os Estados Unidos, trouxe o nome de Savitri Devi à tona novamente.
Hoje não é difícil encontrar referências em fóruns neonazistas a seus livros. Entre os mais mencionados, estão O raio e o sol, no qual a autora argumenta que Hitler era a reencarnação do deus hindu Vishnu, e Ouro na Fornalha, que incita os verdadeiros fiéis a acreditar no ressurgimento do nacional-socialismo.
O portal de notícias americano Counter-Currents, de extrema direita, também tem um extenso arquivo online sobre sua vida e obra.
As ideias de Savitri também estão chegando a um público mais amplo, por meio de líderes do movimento alt-right, como Richard Spencer e Steve Bannon, fundador do Breitbart News, site de notícias de extrema direita, e que até recentemente era o estrategista-chefe do presidente Donald Trump.
Tanto Spencer quanto Bannon, e em geral toda a alt-right, adotaram sua visão da história, de que haveria uma batalha cíclica entre a luz e as trevas, teoria compartilhada por Savitri e outros místicos fascistas do século 20.
Mas quem era Savitri Devi - e por que suas ideias estão ressurgindo agora?
Atraída por Hitler
Apesar do sári e do nome, Savitri era europeia, filha de mãe inglesa e pai grego-italiano. Nasceu na cidade francesa de Lyon, em 1905, e foi batizada com o nome de Maximiani Portas.
Desde a infância, desprezava todas as formas de igualitarismo. "Uma menina bonita não pode ser igual a uma menina feia", disse ela a um interlocutor de Ernst Zündel, conhecido por negar o Holocausto, em 1978.
Conquistada pelo nacionalismo grego, chegou a Atenas em 1923, juntamente com milhares de refugiados deslocados pela campanha militar desastrosa da Grécia na Ásia Menor no fim da Primeira Guerra Mundial.

Savitri culpava os aliados ocidentais pela humilhação da Grécia e pelo que considerava "punições injustas" impostas à Alemanha pelo Tratado de Versalhes (1919), que encerrou oficialmente a guerra.
Em sua opinião, tanto a Grécia quanto a Alemanha eram vítimas, às quais se havia negado a legítima aspiração de unir todo seu povo em um único território.
Isso, combinado com um forte antissemitismo que dizia ter aprendido na Bíblia, fizeram com que desde muito cedo fosse identificada como uma nacional socialista.
Hitler era líder da Alemanha, mas, para Savitri, a ânsia nazista de erradicar os judeus da Europa e devolver à "raça ariana" sua legítima posição de poder também faziam dele seu "Führer" - palavra que significa líder em alemão.


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